Onde queria estar: chegando em um churrasco. O dia estaria frio.
Antes de sair de casa, eu me arrumaria e comeria algo leve pensando:
"Não quero chegar lá com muita fome, assim não como muito. Vou dar uma enganada no estômago, chego lá e como somente uma saladinha, uma carninha de leve e um bom suco."
Vestiria uma roupa bem quentinha, arrumaria os cabelos, colocaria um cachecol bem bonito e sairia de casa um pouco atrasada.
No caminho, eu me lembraria que cada um seria responsável por levar o que fosse beber:
"Eu teria que comprar uma caixinha de cerveja, mas preciso maneirar! Com esse frio já estou comendo muito! Vou passar no mercado e vou comprar um suco. Melhor!"
Então eu faria uma parada em um mercadinho, compraria um suco, um chiclete sem adição de açúcar e um pacote de barrinhas de cereais para deixar na bolsa durante os próximos dias.
Aproveitaria a pausa para retocar a maquiagem, dar duas espirradinhas do perfume que eu haveria esquecido e então seguiria delicadamente o meu caminho.
Chegando ao local do churrasco, eu já encontraria um amigo descalço e sem camisa com um garfo enorme de churrasco na mão e um pratinho cheio de picanhas quentinhas.
Ele: Caramba Lú!!! Vai em um casamento!!! Que demora!!! Pega uma breja aí e um pedaço de carne!
Eu, educadamente, responderia: Hihihi.. imagina! Tive um aniversário antes, por isso cheguei atrasada! Também, vou te falar: já comi muito! Estou satisfeita! Obrigada querido!
Ele: Ah vá... Pára de falar mentira! Pega uma carne aí, que acabou de sair e pára com essa frescura!
Um pouco sem graça, eu escolheria o menor pedacinho, colocaria na boca, daria um sorriso e seguiria em frente.
Mais dois passos e eu encontraria a anfitriã do evento.
Ela: Oi Lú!!!! Que bom que chegou!!!
Eu: Oi!!! Trouxe suco.. acabei não comprando cerveja, porque não estou bebendo! Onde eu deixo isso?
Ela: AHAHAHAHAAHAH... Ai.. mais você é muito engraçada! CLARO que você vai beber!
Eu: Oi.. não.. não vou não! Eu comi bastante também, acabei almoçando com uma amiga.
Ela: Você almoçou em outro lugar? Até parace!!! Mas tudo bem! Vai ter que beber junto com a gente pelo menos. Pega um copo, que eu vou colocar esse restinho de cerveja aqui e já trago mais!
Ela colocaria um pouquinho de cerveja no meu copo e eu seguiria pensando em algum outro bom argumento que justificasse a minha não alimentação em excesso em um churrasco de amigos.
Quatro passos adiante, seria o juízo final!
Ao caminhar me perceberia sendo observada e então escutaria uma voz alta, vinda de uma amiga que já estaria levemente alterada e que não hesitaria em tentar me convencer, com jeitinho.
Ela: O QUE?? Estou escutando ali que você não tá bebendo e nem vai comer? MAIS QUE CONVERSA É ESSA????
Eu: Nããoo... rsrs... é só agora! Mais tarde como alguma coisinha! Fica tranquila. Como é que você está? Tá tudo bem? Cadê o resto do pessoal?
Ela: PÁRA DE GRAÇA!!! Deixa esse suco sem graça ai, e vamos lá pra mesa! Tem uma carne delícia e tem uma pinguinha que trouxemos de Minas Gerais. É bem docinha e você vai amar!
Amedrontada e pensando no número de calorias, eu seguiria meu caminho. Daria um "oi" para o pessoal e me sentaria.
Chegaria o primeiro copinho de pinga, docinho feito mel. Eu provaria. Perceberia então que eu estaria arruinada em breve, mas resistiria bravamente.
Em seguida, cruzaria com uma bandeja de pão de alho, roubaria discretamente um pedacinho e pensaria: " Tudo bem! Agora chega! "
A amiga daria uma circulada, mas não largaria o alvo. Retornando ao local do crime, ela me fiscalizaria:
Ela: LucianÁ! Cadê a sua cerveja? Você não tá bebendo?????
Eu: Tá aqui, olha só! Estou bebendo!
Ela: Tá aí o que? Só tem espuma aí! Vou trazer outra!
Então eu tomaria uma cerveja, pegaria mais um pedacinho modesto de carne e daria mais uma provadinha na pinguinha de Minas.
Notando minha dispersão e sempre focada em resultados, ela diria:
"Você não está comendo??? Vou trazer um negócio que você vai amar!"
Então ela sairia e retornaria com o veneno final: uma bandeja cheia de pedacinhos de linguiça apimentados.
"Essa é forte! Experimenta!"
Com receio eu pegaria uma, começaria a mastigar e sentiria um gosto bom. Porém, de repente, a minha cabeça inteira começaria a pegar fogo.
Rapidamente, eu tomaria meia lata de cerveja de uma vez só, e morderia um pedaço de pão para tentar conter a ação da pimenta, que provavelmente teria vindo diretamente do inferno.
A ardência passaria, mas eu perceberia que esse seria um caminho sem volta. Uma dose dessa química, e eu já estaria viciada.
Seguiria no esquema: linguiça apimentada, cerveja, pedacinho de pão e pinguinha doce de sobremesa.
46 minutos depois, eu já estaria discursando em voz alta, falando mal das famosas que ficam inventando essa história de comer tapioca e suco verde para emagrecer.
E finalizando, seria aplaudida ao dizer que tem é que ser feliz e não ficar se apegando nesse negócio de calorias!!!!!
Um brinde: tim.. tim!!
Onde estou: trabalhando...